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A masmorra

A masmorra

A masmorra

    O carcereiro, que estava sentado à mesa, ressonava. À frente dele, sobre o tosco móvel de madeira derribada à floresta, uma candeia ardia, dispersando precariamente a escuridão viscosa, que emanava das paredes bolorentas, e a tudo envolvia, pesadamente, com o seu acre bafio. O vigia esquecera o postigo do cárcere aberto; por isso, uma nesga azulada de luz chegava à cela, adensava sobre nossas cabeças e depois morria, sufocada pela treva úmida e cruciante.

   O meu companheiro de reclusão era jovem e moreno, como eu. Os olhos eram negros e indolentes, mas uma chama atroz, por vezes, rutilava subitamente em suas pupilas, e uma fisionomia absurdamente desumana assomava à sua face, como se emergisse das camadas mais obscuras de sua alma. Isto também – devo confessá-lo – vinha comigo; mas era ele, ao invés de mim, um rico e poderoso boiardo, que pelejara, com galhardia, contra os otomanos. Embora estivesse trancafiado há mais de uma semana, conforme eu calculava juntando a cada inexorável amanhecer mais um nó aos cadarços de minhas botinas, o jovem duque mantinha limpa e fresca a sua indumentária de nobre, malgrado tivesse agora as barbas crescidas e os cabelos oleosos em perene rebeldia. Juntos, parecíamos irmãos consanguíneos. Mas as semelhanças esmaeciam quando confrontávamos as nossas histórias.


    Eu fora atirado ao calabouço do castelo de Bran porque sonegara a terça ao meu impiedoso suserano, e, agora, esperava o dia em que, em praça pública, e à guisa de exemplo, faria parte do macabro séquito destinado ao holocausto; ele, porque, dentre todos os boiardos da Valáquia, fora o único a ter o ventre poupado ao deslize perfurante da estaca aguçada. Tão-logo reconquistou de Vladislav o trono valáquio, Vlad Drácula convocou à sua corte, reunida em Tirgoviste, a poderosa nobreza do país. Ansiosa por cargos e regalia, mais de uma centena de boiardos acorreu, nesciamente, de peito inflado pela ambição, ao chamado do novo suserano. E não suspeitavam os gentis-homens que as portas do castelo se abriam como o aparato móvel e fatídico de uma ratoeira. Mal as barras de ferro selaram os portões do vasto salão de banquete, veio a ordem do sanguinário soberano, cuja crueldade rivalizava com a incomplacência: um a um os nobres valáquios encontram a morte cruel pela empalação. O motivo pelo qual se salvara o Duque de Vesta Verde ninguém sabia ao certo dizer; mas comentava-se amiúde, e erradamente, que Vlad Drácula, embora primogênito do Diabo*, hesitou em derramar sangue de mesma estirpe que a sua, talvez em respeito à memória de Vlad Dracul, de quem o duque, agora meu companheiro de masmorra, era igualmente filho, ainda que ilegítimo.

    O jovem duque estava a salvo da empalação. Quanto a mim, eu só poderia dizer justamente o contrário, já que minha execução era quase iminente. Por isso, e porque havia pouco espaço nos meus cadarços para novos nós, recuava o pensamento quando se insinuavam em minha mente insidiosas sugestões. Sugestões incoercíveis – vaporosas e medonhas –, carregadas de imagens tenebrosas, pintadas em cores esfumadas, de uma morte certa e cruel. Eu via, emergindo da escuridão, o meu corpo dobrado, traspassado pela estaca em riste, sacudindo-se ao ritmo frenético dos espasmos que orquestram um fim agônico e prolongado. Atinha-me, assim, exclusivamente, ao meu passado de camponês. O duque me ouvia atentamente, embora minha narrativa o entediasse. Às vezes, maneava a cabeça, com  um assentimento impaciente. Eu ia completar uma reminiscência de infância quando a chave girou. Um jovem imberbe irrompeu de súbito, precipitado que fora, violentamente, de encontro ao chão. Desta feita, o carcereiro cerrou o postigo, arremessando-nos na escuridão mais aterradora. Apenas avisou, antes de fechá-lo, que tivéssemos cuidado com os nossos pertences – que a rigor eram nenhum – porque estaríamos na companhia de um gatuno. E sorriu ruidosamente, antes de aboletar-se em sua mesa, donde, pouco depois, vieram os sonoros roncos.

    – Senhor Duque de Vesta Verde! Que o Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso único Salvador, esteja convosco! – exclamou o rapaz que, num vislumbre embora mínimo, reconhecera imediatamente o seu senhor. – Cá estou para cumprir a minha pena. Mas vos posso participar de uma alegre notícia, que grassa  todo o país como um rastilho de pólvora, cujo fumo oloroso se eleva aos céus como uma dádiva e uma bênção divinas, em atenção às nossas preces silenciosas. Sabe-se que vosso irmão assinará, ainda hoje, a vossa alforria. Vosso tesouro e vossas terras serão restituídos, assim como vosso título nobiliárquico. Amanhã, ao morrerrem  as matinas, uma pequena comitiva irá vos escoltar até Tirgoviste, onde o Príncipe Vlad, pessoalmente, procederá à vossa reabilitação, em solenidade pública.

    Às palavras do jovem imberbe, elevou-se um ruído seco, semelhante a um estalo de dedos. Após uma pausa interrogativa, ele prosseguiu:

    – Ouvi-me, senhor?

    – Perfeitamente – eu respondi, ainda segurando o corpo inerte do príncipe. Eu havia partido o seu pescoço com um único movimento presto e brusco. Agarrara com a sinistra a sua goela, puxando-a para trás, amparando a sua nuca no meu ombro direito; com a outra mão, girei a sua cabeça rápida e violentamente para o lado e para  trás, até que viesse o estalo característico. – A ti sou profundamente agradecido pela menção da boa nova. Vem tu a mim, já que mereço o teu amplexo – disse, enquanto silenciosamente depunha o corpo do duque no assoalho de pedra.

    Ouvi que o jovem se aproximava, até sentir-lhe a tépida respiração. Então, dando a volta em torno de onde ele deveria estar, repeti o procedimento homicida com a mesma destreza calma e silenciosa. Depois, recolhi os cadáveres em um canto obscuro e troquei as minhas vestes pelas  do Duque de Vesta Verde.

    Naquela noite dormi mal. Estava demais excitado para deixar-me conduzir docilmente à languidez do sono. A expectativa de uma fuga quase imediata fazia o meu peito arfar e o meu coração bater descompassado. E a companhia de dois cadáveres atiçava a minha imaginação, que ardia em brasas. Assim, os meus febris pensamentos vagavam pela escuridão da cela, flutuando no ar como se donos de seu próprio destino. Minhas reflexões absorviam a umidade das trevas e, como elas, tornavam-se azedas e bolorentas. Migravam pelos cantos do cárcere, perpassavam as paredes como sombras fugidias, invadiam as mentes mortas do príncipe e do jovem larápio; depois, retornavam ao seu incôndito covil com o dobrar furioso de sinos lúgubres, a abalar-me os alicerces. Atormentava-me, como uma badalada a percutir e a vibrar em meu crânio, a possibilidade de ser reconhecido, embora me fiasse na convicção de que, usando os paramentos impecáveis do Duque de Vesta Verde – nos quais, à altura de meu peito, a estampa de um dragão inconcusso aquecia-me com as chamas que exalava pelas fuças –, até mesmo a minha mãe seria engabelada.

    Foi quando senti que algo se aproximava de mim. Como que envolto num halo azulado, translúcido e fantasmagórico, o Duque de Vesta Verde, metido em meus trajes de camponês, mergulhava as mãos frias em meu pescoço e com elas pressionava-me o pomo-de-adão. Olhei nos seus olhos, e vi que não eram mais os mesmos, pois agora a sua face assumia as feições pueris do jovem  gatuno imberbe, embora as mãos continuassem vigorosas e inflexíveis como as de um bravo guerreiro boiardo. Então uma adaga flutuante cintilou, antes de percorrer o meu pescoço com uma precisão absoluta. Estava-me a sufocar quando vieram as batidas na porta. Despeitei de súbito, arfando e bufando. O carcereiro chamava pelo Duque, anunciando, pelo postigo, a sua libertação:

    – Senhor Duque, apressai-vos! Deveis logo vos aprontar, pois que vosso irmão, o Príncipe Vlad, vos espera no castelo de Tirgoviste! – gritou o carcereiro do turno da manhã, aquele que aliciava garotinhas e as bolinava na sala de tortura, e que tinha os olhos nublados pela catarata. Não poderia haver dúvidas: eu estava a salvo.

    De onde estava, o carcereiro certamente podia me ver, apesar de seus olhos baços de velho perdigueiro, mas não divisava os meus companheiros. Eu os havia recolhido ao fundo da cela para evitar que o velho vigia percebesse, prematuramente, que eles não dormiam, pois estavam, como vós já sabeis, definitivamente mortos. Levantei-me. Dei, como de costume, um nó no cadarço, e, simulando uma esplêndida majestade, transpus, transpirando uma arrogância quase genuína, os umbrais que se abriam para mim.

    Em pouco tempo, escoltado por dois membros da guarda principesca, estava eu a caminho de Tirgoviste. Seguíamos por uma estrada de ladrilhos pétreos, margeada pela floresta de árvores esguias. Teixos e pinheiros subiam os vales num ritmo indolente, apressado pelos ventos, até as encostas das montanhas enevoadas. Pensava em como faria para me livrar de tão inoportuna e perigosa companhia. Precisaria agir rapidamente. Como um simples camponês, eu não estava bem treinado para a guerra e, desarmado, seria quase impossível fazer com que os guardas sucumbissem à minha violência. Mas, se me faltava a força física, sobejavam-me a astúcia e a artimanha. Buscando, confiante, uma oportunidade para escapar, pus-me a conversar com o guarda mais jovem, no intuito de distraí-lo:

    – Alegra-me que esteja o Príncipe Vlad assim tão clemente...

    – Ah, não sabe vossa alteza o que se passa no coração de vosso irmão! – respondeu-me prontamente o guarda, sem tirar os olhos das rédeas de sua montaria. – Ainda ontem, o nobre príncipe concedeu, por decreto, anistia a todos os vassalos que sonegaram as terças pertencentes a seus suseranos mortos. Comenta-se que a clemência de nosso valoroso príncipe tenha um preço, pois deseja ele, sem tardança, empregar todos os homens disponíveis, nobres ou não, em campanha contra os turcos infiéis. Ele está arregimentando um exército poderoso, em que nenhum valáquio púbere pode faltar, nem mesmo os excomungados e sonegadores de tributos.

    A estas palavras, minha face anuviou.    Sem perceber que o fazia, apeei. Os guardas desceram de seus cavalos, perguntado-me:

    – O que se passa, senhor?

    Ao longe, eu ainda conseguia divisar o castelo de Bran, uma fortaleza negra mergulhada na floresta de árvores aguçadas. Ali, dois homens haviam sido sacrificados inutilmente, tombados ao assédio cruel de minhas mãos assassinas. Já quando eu os matara, estava livre, mas disso não sabia e nem poderia adivinhar. Permiti que minha astúcia homicida tisnasse o meu próprio destino. Deixasse-me ficar e, a esta hora, estaria de mãos limpas, livre de qualquer apuro e sem peias para desertar à convocação militar. Mas, agora, a minha situação parecia-me absurda e desnecessariamente complicada. Afinal, eu matara um duque, meio-irmão do sanguinário príncipe Vlad Drácula. A expectativa de uma fuga artimanhosa cedera lugar a um arrependimento estéril, e um medo insano golpeou o meu espírito com o ímpeto de um aríete.

    – Votemos à montaria – ordenei.

    – Não, senhor. Vós não ireis a lugar algum. Vossa alteza, involuntariamente, apeou no destino certo – disse-me, sem piedade, o guarda mais velho.

    Os guardas arrebataram-me violentamente e me conduziram a uma clareira que se abria bem próxima à orla da floresta. Então, tudo compreendi. A sagacidade e a crueldade do Príncipe Vlad não tinham limites. Traiçoeiro como uma víbora peçonhenta, elaborara uma cilada para atrair o irmão à morte, mas de uma maneira tal que não recaísse sobre suas costas qualquer suspeita. O Duque de Vesta Verde era querido pelos súditos. Por isso, e não por um respeito sobrenatural a um pai defunto, poupar-lhe do príncipe, provisoriamente, a vida; mas não sem antes engendrar, em seu espírito malévolo, um desfecho que lhe atendia convenientemente às premências das injunções políticas. Vlad poupara a vida do irmão bastardo – e isto é fato – mas apenas para encenar uma morte burlesca: liberto pelo seu clemente príncipe, o duque padecera à investida de salteadores, quando rumava altivo para a reabilitação.

    Sim, isto era evidente! O príncipe temia que o irmão bastardo aspirasse ao trono. E como fui tolo em crer que houvesse, naquele coração pedregoso, um pequeno nicho a abrigar um fiasco de clemência! Como fui néscio em olvidar que as armadilhas insidiosas eram a tática de que se valia o jovem príncipe da Valáquia para dizimar os seus inimigos!

    Depuseram-me junto ao tronco de um jovem teixo; ali, dois cadáveres insepultos já me esperavam. Próximo a mim, o sangue ainda viscoso inundava o peito de dois homens maltrapilhos, proliferando sobre os seus corpos como a sombra de um sudário rubro e andrajoso. Repentinamente, o guarda mais velho mergulhou, à covardia, a sua adaga no tórax do próprio companheiro, cujos olhos, no momento da morte, sacudiam-se de surpresa e pavor. Depois, desferiu um golpe no próprio braço, num simulacro de enfrentamento heroico aos ladrões.


A farsa estava ultimada. Sim! Findava-se a macabra pantomima!  Eu havia matado dois homens – um deles irmão do próprio Empalador –  inutilmente, visto que, desde ontem, eu era um homem livre, embora ainda não o soubesse. Contudo, ao fazer-me passar por quem assassinara, em busca de uma liberdade que já me pertencia, encontrara o justo castigo.  Mas, quando o meu corpo fosse descoberto, Vlad Drácula não teria como livrar-se das insinuações, como abafar o escândalo sorrateiro de um cruel fratricídio. Isto, de certa forma, me alegrava, aplacando-me o desespero.

“Pelo menos não morrerei empalado”, pensei, antes que a adaga amolada percorresse lentamente toda a curvatura de  meu pescoço, que tombou num ângulo grotesco, permitindo que  meu sangue se esvaísse completamente.

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